A insustentável leveza de Ed René Kivitz

   Alguns pensadores chocam pela polêmica e, entre eles, figura o nome do Pr. Ed René Kivitz, pastor da Igreja Batista da Água Branca, na Capital paulista. O Pr. Ed René é conhecido pelas participações em palestras e e encontros de reflexão teológica intelectual. Ele possui uma tendência teológica mais modernista e, assim como o Pr. Ricardo Gondim, da Igreja Betesda, é adepto da teologia relacional (também chamada de teísmo aberto), porém, de uma forma mais "suave".
   Recentemente, me deparei com um texto do Pr. Ed René que me chamou muito a atenção. Seun título é: "Adão e Eva somos nós", que você confere na íntegra aqui. Com a sua já conhecida eloquência literária, o Pr. Ed René afirma que a descrição bíblica do Gênesis é uma figura daquilo que somos hoje. Ou seja, as atitudes dos nossos primeiros pais são ilustrações da vida do ser humano contemporâneo, que se encontra totalmente envolto de egoísmo, hedonismo, ansiedades, mentiras, desobediência, e tudo o mais.
   De fato, todos os males que a humanidade sofre e pratica são frutos do pecado de Adão e, hoje, como as Escrituras bem afirmam, vivemos as terríveis consequências e punições advindas de nossa escolha pecaminosa (Gn 2.15-17; 3.14-19; Rm 3.23; 5.12,17-19; 6.23). Realmente, o que somos hoje, tem as suas raízes no passado. Mas o problema do Pr. Ed é outro, e grave. Ele afirma em seu texto que, Adão e Eva somos nós.
   Em sua análise de Gênesis, o Pr. Ed René deixa claro que não crê na literalidade do texto e questiona sua historicidade até mesmo de forma jocosa. Veja o que ele diz:
"Você pode interpretar a história de Adão e Eva como uma descrição de como as coisas aconteceram. Mas pode também interpretar como descrição de como as coisas acontecem. Pode ser uma história que conta como as coisas foram, ou como as coisas são. Pessoalmente, opto pela segunda alternativa. Não me interesso tanto em saber se as coisas foram daquele jeito ou não, não estou preocupado com a literalidade da narrativa, que aliás, me traz mais embaraços que esclarecimentos: houve mesmo um bonequinho de barro? antes de enganar o casal a serpente andava ereta? que fruta era aquela da árvore do conhecimento do bem e do mal, será que está sendo vendida na feira sem que a gente saiba que é ela? quais as coordenadas do jardim do Éden? será que os anjos com espadas de fogo ainda estão por lá?"

   Está claro que o pensamento do Pr. Ed está mais em harmonia com o pensamento teológico liberal e neo-ortodoxo do que com a posição conservadora, que toma a Escritura como Palavra de Deus, afirmando a literalidade do relato bíblico da criação. Sua mente está mais voltada para o aspecto filosófico do texto, em consonância com a realidade contemporânea, do que com os princípios hermenêuticos. Ele continua sua exposição:

"A história de Adão e Eva visa a comunicar a ótica judaico-cristã da natureza humana, da relação entre Deus e o homem, da dinâmica da sociedade humana. O autor bíblico não está preocupado em descrever o processo mecânico natural da criação. Seu texto não tem pretensão das ciências duras, que tratam das engrenagens do universo natural através da física, por exemplo, mas das ciências do espírito, que têm por objeto a complexidade do humano e suas relações".

   Para Ed René, Deus não tem a preocupação com a criação, no sentido físico, e nas explicações acerca da formação do universo que criou com amor e riqueza de detalhes. Em sua interpretação, Ed René "espiritualiza", colocando-O como um ser que tão somente se preocupa com as nuances espirituais da existência. Na verdade, sua análise é mais psicológica do que bíblica; mais humanista do que realmente espiritual.
   No tocante as aplicações, Ed René as faz de maneira objetiva, muito filosófico, mas pertinentes e, ao final, ele deixa seus costumeiros reclames pessimistas, e traz uma centelha de esperança aos seus leitores, afirmando que, a despeito das mazelas do pecado, existe sim, a esperança da restauração que se encontra na Pessoa de Jesus Cristo, o descendente da mulher que esmagou a cabeça da serpente.
   Ed René se assemelha ao escritor tcheco Milan Kundera, autor do best seller "A insustentável leveza do ser". Nesta obra, Kundera relata os encontros e desencontros de quatro personagens, num contexto de tensão onde a antiga Tchecoslováquia sofria a invasão russa. Em sua história, Kundera traz abordagens filosóficas existencialistas, o que também pode ser observado no texto de Kivitz, guardadas as devidas proporções.
   Com essas observações, não desabono o trabalho do Pr. Ed René. Trata-se de um homem de Deus e que tem desempenhado um importante papel como pensador cristão e como pastor de uma grande Igreja em São Paulo/SP. Sua inteligência é admirável e muitos de seus livros e textos, muito desafiadores. No entanto, não comungo com algumas de suas ideias.
   Precisamos ter cuidado com as sutilezas de alguns textos e de alguns teólogos. Muitos deles, por causa das demandas do homem moderno e, no afã de trazer respostas a alguns questionamentos contemporâneos ou explicar a complexidade da vida e do comportamento humano, acabam caindo no erro da relativização das Escrituras Sagradas.                      
                                                                        Rev. Rodrigo G. da Silva

Ed René nega a doutrina do inferno!!!


1 comentários:

Wesley Câmara disse...

Deixando de lado a questão do teísmo aberto, que o próprio Ed René já deixou claro que acha uma "tolice" (no youtube: /watch?v=yRT90FFZ9q0), sugiro que não coloque sua visão (conservadora/fundamentalista) como se fosse o parâmetro absoluto para julgar (discernir) os demais. Nem todo não conservador é liberal (óbvio) e absoluto é apenas um: Deus revelado em Cristo. Tudo que foi criado, mesmo sendo instrumento de Deus, é sim, relativo, por definição. E um relato não precisa ser literal para ser verdadeiro. Uma análise "não viciada" aprofundada do relato do Gênesis deixa alguns pontos bem claros (como essa questão de linguagem usada, tradições que participaram da composição, processo de formação...). Abraço e fique na paz.